A “pandemia” das canetas de emagrecimento: por que o Mounjaro virou febre no Brasil e acendeu o alerta da Anvisa
A popularização da tirzepatida trouxe uma nova corrida pelo emagrecimento, mas também aumentou os casos de uso inadequado, produtos irregulares, falsificações e até manipulação caseira do medicamento
O Brasil vive uma verdadeira corrida em torno das chamadas “canetas emagrecedoras”. Entre os medicamentos que ganharam enorme repercussão está o Mounjaro, cujo princípio ativo é a tirzepatida.
O sucesso do medicamento é explicado, em parte, pelos resultados observados no tratamento do diabetes tipo 2 e, posteriormente, pelo uso aprovado para controle crônico do peso em determinadas condições. Mas, à medida que a procura aumentou, também surgiram problemas que vão muito além da busca por emagrecimento.
A Anvisa vem intensificando os alertas e as ações contra produtos sem registro, falsificações e formas inadequadas de utilização da tirzepatida. Em julho de 2026, a agência determinou a apreensão de lotes falsificados de Mounjaro. Em setembro, proibiu uma caneta de tirzepatida chamada T36, que não possui registro sanitário no Brasil. E, em 23 de setembro, publicou um novo alerta contra a manipulação caseira de tirzepatida vendida pela internet.
O que está por trás da febre do Mounjaro?
O Mounjaro contém tirzepatida, uma substância que atua sobre os receptores dos hormônios GIP e GLP-1. A ação desses mecanismos está relacionada ao controle da glicemia, da saciedade e da ingestão alimentar.
No Brasil, o medicamento foi registrado inicialmente para melhorar o controle glicêmico de adultos com diabetes mellitus tipo 2. Em junho de 2025, a Anvisa aprovou uma nova indicação para o controle crônico do peso, incluindo perda e manutenção do peso, em adultos com obesidade ou em determinados casos de sobrepeso associado a condições relacionadas ao peso.
Isso ajudou a ampliar ainda mais o interesse pelo medicamento.
Nas redes sociais, relatos de pessoas que perderam peso, vídeos de transformação corporal e discussões sobre as chamadas “canetas emagrecedoras” ajudaram a transformar o Mounjaro em um dos medicamentos mais comentados do momento.
Mas existe uma diferença fundamental entre um medicamento aprovado para determinadas condições e a ideia de que qualquer pessoa possa utilizá-lo simplesmente para perder alguns quilos.
Mounjaro não é um produto para ser usado por conta própria
A popularização do medicamento trouxe uma preocupação importante para autoridades sanitárias e médicos: o uso sem avaliação profissional.
Em 2025, a Anvisa determinou regras mais rigorosas para os medicamentos agonistas de GLP-1, grupo que inclui a tirzepatida. A prescrição passou a ser feita em duas vias e a receita deve ser retida pela farmácia ou drogaria, com validade de até 90 dias. Entre os medicamentos afetados estão Mounjaro, Ozempic e Wegovy.
A medida foi adotada diante da preocupação com eventos adversos e com o uso desses medicamentos fora das indicações aprovadas.
Em fevereiro de 2026, a Anvisa voltou a chamar atenção para os riscos associados ao uso inadequado das chamadas canetas emagrecedoras, destacando a possibilidade de eventos graves, como pancreatite aguda. A agência informou que, no Brasil, foram registradas 145 notificações de suspeitas de eventos adversos relacionados a esses medicamentos entre 2020 e 7 de dezembro de 2025, incluindo seis suspeitas de casos com desfecho de óbito.
Isso não significa que a tirzepatida seja considerada insegura quando utilizada corretamente. O próprio alerta da Anvisa ressalta que a relação benefício-risco permanece favorável dentro das indicações aprovadas e com acompanhamento adequado.
O problema está principalmente no uso inadequado.
O novo alerta: pessoas estão tentando preparar a tirzepatida em casa
Um dos fatos mais recentes e preocupantes surgiu justamente em 23 de setembro de 2026.
A Anvisa publicou um alerta sobre a divulgação de tirzepatida em pó pela internet e vídeos ensinando pessoas a diluir e aplicar o produto por conta própria.
A agência afirma que essa prática não é segura porque produtos não produzidos em ambiente estéril podem apresentar riscos de contaminação e infecção. Além disso, quando a substância não passou pelo controle regulatório, não há garantia de que a concentração esteja correta, de que o princípio ativo realmente esteja presente ou de que não existam impurezas ou contaminantes.
É justamente nesse ponto que a chamada “febre das canetas” começa a assumir uma dimensão preocupante.
Uma pessoa pode acreditar que está comprando uma alternativa mais barata ao Mounjaro, mas, sem controle sanitário, pode não saber exatamente o que está colocando dentro do próprio organismo.
A falsificação do Mounjaro também entrou no radar
O problema não se limita aos produtos vendidos como alternativas.
Em julho deste ano, a Anvisa determinou a apreensão de lotes falsificados do próprio Mounjaro.
Entre os produtos identificados estavam o Mounjaro 10 mg, lote 855044, e apresentações de 15 mg identificadas pelos lotes D880403, MJR 257 e D854901.
Segundo a agência, foram encontradas diferentes irregularidades, incluindo lotes não reconhecidos pela fabricante, número de série incompatível com o lote, dispositivo diferente do produto original e até erro de grafia na embalagem.
Pouco depois, em julho, a Anvisa também determinou a apreensão de outro produto apresentado como Mounjaro, após a identificação de incompatibilidade entre lote e número de série.
Para o consumidor, isso cria uma situação delicada: quanto maior a procura por um medicamento, maior pode ser também o interesse de pessoas e empresas em comercializar produtos falsificados ou irregulares.
A nova ameaça: canetas de tirzepatida sem registro
Em 16 de setembro de 2026, a Anvisa proibiu a importação, armazenamento, distribuição, comercialização, propaganda e uso da caneta denominada T36.
O produto é apresentado como uma versão de tirzepatida, princípio ativo do Mounjaro, mas não possui registro sanitário no Brasil e não teve sua segurança e eficácia avaliadas pela Anvisa.
A agência também informou que vinha adotando medidas contra outros produtos anunciados pela internet e que alegavam conter tirzepatida ou até retatrutida, uma substância que ainda não possui registro em nenhum país.
O caso mostra uma questão que muitas vezes passa despercebida: ter o mesmo princípio ativo não significa automaticamente que dois produtos sejam equivalentes ou igualmente seguros.
A origem, a fabricação, a concentração, a estabilidade, o armazenamento, o transporte e o controle de qualidade fazem parte da segurança de um medicamento.
E as chamadas “canetas paraguaias”?
A circulação de produtos de tirzepatida vindos do Paraguai também entrou no radar das autoridades brasileiras.
Reportagem publicada pela Folha de S.Paulo em setembro de 2026 informou que análises realizadas pela Unicamp identificaram o mesmo princípio ativo em amostras de determinadas tirzepatidas paraguaias, mas ressaltou que isso, isoladamente, não comprova equivalência terapêutica, segurança ou eficácia.
A própria reportagem explica que a identificação da molécula não é suficiente para garantir a qualidade farmacêutica de um produto.
No Brasil, o registro sanitário precisa ser concedido pela Anvisa. Um registro obtido em outro país não é automaticamente válido para comercialização regular em território brasileiro.
Por que tanta gente está procurando o Mounjaro?
A resposta passa por uma combinação de fatores.
Primeiro, existe uma preocupação crescente da população com obesidade e doenças metabólicas.
Segundo, os resultados apresentados em estudos clínicos ajudaram a aumentar o interesse pela tirzepatida.
E terceiro, existe o enorme poder das redes sociais.
Antes mesmo de a pessoa procurar um médico, ela pode encontrar dezenas de vídeos mostrando transformações físicas, relatos de perda de peso e depoimentos de usuários.
O problema é que uma experiência individual publicada na internet não substitui uma avaliação médica.
Uma pessoa pode ter uma resposta diferente de outra, apresentar contraindicações, utilizar outros medicamentos ou desenvolver efeitos adversos.
Os efeitos colaterais também precisam entrar nessa conversa
Como acontece com outros medicamentos, a tirzepatida pode provocar efeitos adversos.
Entre os sintomas relacionados aos medicamentos dessa classe estão náuseas, vômitos, diarreia e constipação. Também existem eventos mais graves que exigem atenção médica.
A Anvisa destacou especificamente o risco de pancreatite aguda associado ao uso dos agonistas de GLP-1, especialmente quando utilizados de maneira inadequada ou fora das indicações autorizadas.
Por isso, sintomas como dor abdominal intensa e persistente, especialmente quando acompanhada de náuseas ou vômitos, precisam ser avaliados imediatamente por um profissional de saúde.
O Mounjaro é perigoso?
A resposta precisa ser mais cuidadosa do que um simples “sim” ou “não”.
O Mounjaro é um medicamento autorizado pela Anvisa e possui indicações específicas. O problema não é simplesmente a existência da tirzepatida, mas como, por quem, para quem e de onde o medicamento está sendo adquirido.
A própria Anvisa afirma que os benefícios terapêuticos permanecem superiores aos riscos quando os medicamentos são utilizados dentro das indicações aprovadas e de acordo com as orientações de segurança.
Por outro lado, o uso sem acompanhamento, a compra de produtos clandestinos, a utilização de produtos falsificados e a manipulação caseira podem transformar uma tentativa de emagrecimento em um problema de saúde.
O que o consumidor deve observar?
A recomendação das autoridades sanitárias é clara: medicamentos devem ser adquiridos em estabelecimentos regularizados.
No caso do Mounjaro, a Anvisa orienta que consumidores e profissionais de saúde adquiram o medicamento em farmácias regularizadas, com a embalagem completa e nota fiscal. Em caso de suspeita de falsificação, o produto não deve ser utilizado.
Também é importante desconfiar de ofertas muito abaixo do preço habitual, produtos vendidos por redes sociais, grupos de mensagens ou sites que não sejam canais oficiais de farmácias regularizadas.
Outro sinal de alerta são anúncios que prometem resultados extraordinários ou apresentam a tirzepatida como se fosse uma solução milagrosa.
Uma “pandemia” de emagrecimento?
A expressão “pandemia do Mounjaro” pode chamar atenção, mas não deve ser interpretada literalmente.
Não existe uma pandemia causada pelo Mounjaro.
O que existe é uma popularização muito intensa dos medicamentos para emagrecimento, acompanhada pelo crescimento da procura, pela influência das redes sociais e, paralelamente, pelo aumento da preocupação das autoridades com automedicação, produtos sem registro, falsificações e práticas clandestinas.
E esse talvez seja o ponto mais importante dessa história.
A tecnologia médica avançou e hoje existem medicamentos capazes de produzir resultados relevantes no tratamento de doenças metabólicas. Mas quanto maior a fama de um medicamento, maior também é a responsabilidade de separar ciência de propaganda, tratamento de moda e medicamento regular de produto clandestino.
Conclusão
O fenômeno Mounjaro revela uma transformação que está acontecendo diante dos nossos olhos.
A busca pelo emagrecimento deixou de ser apenas uma questão de dieta e exercícios e passou a envolver uma nova geração de medicamentos capazes de interferir diretamente em mecanismos relacionados ao apetite, à saciedade e ao metabolismo.
Mas o mesmo sucesso que colocou essas substâncias no centro das atenções também abriu espaço para falsificações, produtos sem registro, vendas irregulares e até tutoriais ensinando pessoas a preparar medicamentos em casa.
A mensagem mais importante é simples: emagrecer não pode significar colocar a própria segurança em segundo plano.
Se existe indicação médica para o tratamento, o caminho é acompanhamento profissional e utilização de produto regularizado. Se a oferta parece boa demais para ser verdade, principalmente quando envolve medicamentos injetáveis vendidos pela internet, o cuidado precisa ser redobrado.
No fim das contas, a verdadeira discussão não deveria ser apenas sobre quantos quilos uma pessoa consegue perder.
Deveria ser sobre como perder peso sem colocar a saúde em risco.
Womais — informação para você entender o que está acontecendo antes de tomar qualquer decisão. Redação William Oliveira


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